Basicamente necessário



Em 2009 fui convidada a acompanhar um trabalho realizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela administração das unidades de conservação federais brasileiras. O projeto, realizado em parceria com a ONG Pacto Amazônico, educa comunidades ribeirinhas do Amazonas que vivem dentro destas unidades de conservação. Além de explicar aos moradores a importância da unidade de conservação e mostrar do que eles podem usufruir e também o que não podem fazer, o projeto também ensina e incentiva as famílias das comunidades a se unirem para criar suas associações, que são fundamentais para que as comunidades possam adquirir mais voz e exigir da prefeitura seus direitos básicos.

Em uma das atividades realizadas com as comunidades, algo me chamou atenção e me fez parar para pensar. Divididos em grupos, os moradores tiveram que levantar as principais necessidades de sua comunidade e pensar nos procedimentos para saná-las. Os grupos apontaram a falta de escolas, postos de saúde, transporte até a cidade, dentre outras coisas. Porém, algo que para mim era fundamental e me fez muuuuuuuuuuita falta nos dias que passei lá (com toda certeza seria a primeira coisa que eu apontaria) nem foi lembrado: energia elétrica e saneamento básico.

Fiquei refletindo bastante sobre isso depois...
Isso que para nós é tão normal e cotidiano, para eles não existe, nem nunca existiu no dia-a-dia. Creio que eles não possam sentir falta de algo que nunca tiveram. No momento em que passassem a ter acesso, isso se tornaria um “luxo”, algo a mais para facilitar as coisas... E somente após efetivamente conviverem com isso, poderiam realmente sentir falta desse conforto.

Ao mesmo tempo, se perguntássemos para as crianças o que elas queriam ser quando crescer, elas não sabiam o que responder e estranhavam a pergunta. O que para uma criança da cidade seria uma pergunta normal, para elas não fazia sentido pois não conseguiam visualizar algo além da realidade deles e um futuro diferente do de seus pais.

E a reflexão que faço disso é sobre todas as facilidades que nos apegamos na vida, que antes não tínhamos e hoje temos. Como máquinas, o computador, a internet, o celular, etc, que passamos a considerar, inclusive, como necessidades básicas. E que se tornam ainda mais fundamentais para quem nunca conviveu com sua ausência.

No fim, convivendo com estes extremos passei a dar mais valor para algumas coisas que nunca haviam me feito falta, pois sempre as tive à minha disposição. Ao mesmo tempo, passei a questionar a constante criação de novas facilidades que nos tornam totalmente dependentes.

Há alguns anos nem existia internet.. Hoje, imagina ficar uma semana sem! E lembra de quando o Brasil “parou” devido ao problema no Speedy? E quando acabou a luz no Brasil inteiro?

Lá, eles nem ficam sequer sabendo dessas coisas... Desse jeito até parece que eles estão livres de problemas... Mas nós é que criamos mais e mais problemas em cima das nossas mais variadas soluções e conseqüentes dependências.

Autor: Júlia S.

Esse texto foi feito por uma grande amiga de onde trabalho, a qual respeito e gosto muito de sua amizade, grande Júlia, e obrigado. Que Deus continue a abençõar seu caminho e que nossa amizade possa ser eterna...

Comentários

  1. Saudades desta pessoa que escreve sempre muito bem! Abraços à Júlia e parabéns ao Rogério pela iniciativa.

    Luiz Santiago

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